TERRA ADORADA

Quando decidimos fazer uma edição em um formato inovador, totalmente aberto, baseado no que estou chamando de jornalismo de rede, nem passava pelo meu horizonte ser considerada uma Top Voice pelo LinkedIn. Recebi a informação com surpresa. Quem? Eu? Jura? Cava gelada, troféu recebido, parabéns aos demais, obrigada a quem parabenizou, beijinho no ombro e comecei a refletir sobre o prêmio. 
Sinapses feitas, compreendi o que significa para mim ser uma voz. É uma oportunidade de usar a minha para reverberar muitas outras, assim como estávamos fazendo com a revista e suas plataformas. O coletivo no lugar do individual. A transparência em vez do sigilo. Fiquei realmente feliz com a coincidência e acredito ser este o espírito do tempo, o Zeitgeist do pós-imbróglio em que nos metemos com pandemia, mudança climática e muitas outras contas que estão sendo apresentadas à nossa espécie. 
Como todos que nos acompanham já sabem, antes de escrever qualquer palavra desta edição tomamos como tema central as ações feitas por empresas, indivíduos e organizações que estão transformando a degradação das florestas em oportunidade de negócios. Queríamos ser justos e dar visibilidade a quem já está trabalhando há tempos e a quem tem resultados para apresentar. Por isso postei nas redes sobre a reportagem principal e convidei os leitores a participar, dando sugestões, marcando pessoas que trabalham com o tema, lembrando de boas fontes e de iniciativas exemplares. 
Não foi uma curadoria simples. Duas centenas de pessoas colaboraram, e o nome delas está devidamente registrado nas páginas da revista física e nos seus desdobramentos online. Obrigada! Esta é a sua voz sobre um tema urgente: a sobrevivência da humanidade e de diversos outros seres no planeta Terra, ameaçados pelas nossas ações. Desconheço assunto mais relevante. Há tempos estamos jogando (e perdendo) nos minutos adicionais do segundo tempo. 
Acredito no engajamento como reação ao sentimento de impotência. Afinal, não é de hoje que somos bombardeados com tragédias ambientais no Oriente e no Ocidente. Entre outras mil, imagens de coalas em chamas, de florestas e pequenas cidades virando cinzas, de nossas onças com patas queimadas, aves em desespero, macacos assustados e jacarés calcinados, biomas inteiros destruídos em questão de semanas. Parte disso no nosso país, que um dia alcançou fama mundial por ser gigante pela própria natureza. 
Comecei minha carreira como repórter de turismo, e depois virei repórter investigativa no Globo e na Veja. Quando trabalhei para o Valor e para a Marie Claire, conheci mais de 40 países. Mas poucas paisagens foram mais inebriantes do que o Pantanal, cujo céu formoso e límpido neste ano ardeu em chamas, impedindo que o Cruzeiro resplandecesse. Emoção igual senti no litoral sul de Alagoas, aquele que ao som do mar e à luz do céu profundo também foi manchado em 2019 pelo misterioso derramamento de óleo cuja origem nem os satélites foram capazes de desvendar. 
Ainda entra no enredo desse pesadelo sem fim o rompimento de barreiras, o horror da morte de um rio e da lama engolfando os filhos deste solo. São desastres de proporções colossais. Mas vocês mostraram que ainda tem jogo, e muita ação de impacto acontecendo para conservar, restaurar, regenerar, mudar definitivamente a lógica de que empresas podem prosperar sem apresentar a sua contabilidade ecológica. 
Transparência e responsabilidade formaram uma ciranda com a cadeia de negócios. É uma questão de tempo para que ESG, a sigla que define a nova roupagem da sustentabilidade — como nos explica nosso novo colunista Ricardo Voltolini —, seja padrão para todas as empresas. Não dá para fechar os olhos para o que acontece na cadeia de fornecedores, na origem da matéria-prima, no impacto socioambiental causado pelas indústrias e pelo nosso consumo. A mão de obra terceirizada não diminuiu a responsabilidade perante a sociedade e os consumidores. Que o diga o Carrefour. 
É uma mudança a ser celebrada. Tive oportunidade de ver algumas sementes nos principais festivais de inovação do mundo. Assisti ao nascimento de algumas startups pioneiras que já vislumbravam na preservação um modelo rentável. Mas tinha pouca esperança no seu real alcance. Agora, vocês, leitores, nos mostraram que as grandes empresas lideram top down algumas das iniciativas mais relevantes, pois suas diretrizes reverberam em toda a sua cadeia de valor, gerando impacto e contribuindo para preservar milhões de hectares de florestas e centenas de mananciais, sem abrir mão da geração de renda.  
Vocês trouxeram casos de sucesso de todos os continentes. Da grande muralha verde para conter a expansão do deserto do Saara à associação de 30 empresas que criou um coletivo para fomentar novos modelos de desenvolvimento sustentável na região da Amazônia. Considerando que empresas são movidas a metas e gestão, temos esperança de resultados concretos. No atual estado das coisas, é a iniciativa privada quem agora assume um papel pioneiro na reconstrução do planeta, tão destruído pelo consumo predatório de seus recursos.  
É uma mudança de paradigma crucial. Começou há décadas e teve seus marcos. Um deles ocorreu quando Severn Cullis-Suzuki, então com 13 anos, silenciou os grandes líderes mundiais com seu potente discurso na Eco-92, no Rio de Janeiro. Sorry, Greta. 
Finalmente chegamos à conclusão de que não tem cerveja sem água, não nasce comida em solo degradado e que todos temos nossa culpa. Eu mesma confesso que acho difícil esfregar a cabeça com aquelas barrinhas de shampoo sólido. Preferia que a embalagem do shampoo líquido virasse adubo, e eu pudesse lavar meus longos cabelos com muita espuma e sem culpa.   
Gaia, gente. O conceito de que a TSSerra é um ser vivo, inteligente e interligado parece finalmente se sobrepor à nossa ignorância. Nas insônias da vida, li que a população indígena brasileira já foi de aproximadamente 3 milhões de pessoas. Pioneiros na redução da pegada de carbono, não? Devem ter muito a nos ensinar como salvar o planeta e garantir que nossas atitudes sejam sustentáveis. Todo dia conta, e todo dia precisa ser dia de índio.  

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