Editorial

THERE IS NO PLACE LIKE THE OFFICE

Depois de tantos meses sem ter reunião presencial com todo o time, fato tão corriqueiro quanto estacionar o carro na garagem do trabalho, começo a ter flashbacks estranhos. Um dos mais vívidos ocorreu uma década atrás. Perguntei por um funcionário, e algum colega me informou que ele não costumava ir às quintas. Sentei em silêncio e ele continuou: para não ter sua ausência notada, no entanto, ele não desligava o computador; e sempre deixava uma jaqueta velha em sua cadeira.
Eu quis rir, não nego, mas fingi estar escandalizada. As regras me obrigaram a chamá-lo para um papo na salinha e ser clara sobre a política da empresa: trabalhar fora da redação não era permitido em nenhuma das feiras e tampouco durante os plantões de final de semana. Pouco tempo depois, ele saiu da empresa para se tornar um profissional autônomo e no controle da  gestão do seu tempo. Deixou-me pensando na quinta-feira como um projeto idílico envolto em uma nuvem netuniana de autoengano. Como uma chefe poderia sonhar em ter um dia de home office?
Com experiência suficiente em trabalho presencial e depois de ter feito um intensivão com o remoto, olho para trás e penso na tragédia daquela situação. Um repórter disfarçando sua ausência porque se sentia melhor escrevendo de casa, ao menos uma vez por semana. O que parece consenso, sobretudo depois da pandemia, foi proibido ontem. Atualmente, a polêmica está em quantas quintas-feiras cabem no home office.
Desde março de 2020, fomos submetidos a uma experiência de resultados imprevisíveis também para as empresas. Seja como ratos de laboratório em apartamentos, seja em confortáveis condomínios, o home office alterou para sempre nossa relação com o ambiente de trabalho; e não apenas com o trabalho em si, mas com as dinâmicas da corporação. Vai ser preciso investir em técnicas de sedução para atrair os funcionários de volta. Sugiro inclusive iniciar com os casados, com filhos ainda pequenos, morando em prédios com restrições nos parquinhos e demais áreas comuns.
Quem puxa a fila pela volta dos vacinados são as big techs: argumentam que a tal faísca criativa só nasce quando as pessoas se encontram. Estudos mostram. Estudos comprovam. Estudos sustentam. Mas a verdade é que ainda sabemos pouco. Qualquer um que tenha circulado pelas premises das torres envidraçadas de São Paulo, antes de 2020, sabe que fones de ouvido tinham se tornado um escudo eficiente contra a interação humana nos open offices. E as salas com pebolim, as redes, o food station e todos os simuladores de conforto e segurança de uma casa não transformavam os escritórios em casas de verdade — apesar de serem ótimos recursos de semiótica para impressionar clientes e perpetrar um ar de criatividade.
Como alerta nosso entrevistado Mark Mortensen, do Insead, a volta ao trabalho não vai aliviar a sensação de isolamento. Tampouco influenciar na capacidade de inovação das empresas por um único motivo: escritórios luxuosos e metodologias ágeis não bastam para criar a segurança psicológica necessária para qualquer processo de inovação. Vou além. Ainda é preciso assimilar todo esse impacto. Na vida passada, eu só pensava em chegar logo em casa no fim do dia, já no trânsito. Hoje, mal coloco o pé no elevador do prédio e tudo o que almejo é voltar o mais breve possível. Espirros e tosses soam como armas químicas mirando minha imunidade. Encontros casuais ou de negócios acabam sofrendo com a distração que as máscaras me causam. Algumas parecem fraldas, outras estão muito curtas. Outras ainda insistem em embaçar óculos. Meu nariz coça em vão sob a PPF2, a mais protetora e sufocante do meu portfólio.
Diante de tantos desafios, e seguindo sem previsão de vacina para minha faixa etária, fico atônita com o investimento das empresas em escritórios. Para atenuar o trauma da pandemia nos Z e millennials, arquitetos foram convocados para desenhar “office ecosystems”, “Magic Offices” e “Open Nature Offices”.
E já existem precedentes. Na busca por inovação, a empresa de eletrônicos japonesa Ricoh foi visionária e, desde 2018, lançou espaços onde “cores brilhantes são projetadas em um vasto salão branco, envelopado com luz e som, criando uma experiência excitante para os cinco sentidos (...); tudo com o objetivo de encorajar ‘brainstorming ideas’ e meditação, com sensores capazes de medir do grau de relaxamento até a quantidade de palavras e o pulso cardíaco dos participantes — devidamente exibidos para todos no dashboard projetado em um telão”. Que tal?
Mais recente, o novo escritório do Citi em Cingapura prevê salas em tendas cercadas por florestas artificiais luxuriantes. O CEO da Salesforce anunciou estar à procura de uma fazenda para ser transformada em coworking. No cercadinho verde-amarelo, a XP já abandonou a sede da Faria Lima e a transferiu para a aprazível São Roque, no interior de São Paulo. O próprio Benchimol divulgou o projeto nas redes.
Em meio a tantas tentativas, uma coisa é certa. Se até aqui as fronteiras entre casa e escritório tinham se confundido como uma gaveta de roupas desarrumada, agora é a vez de os espaços associados ao ócio e descanso ficarem amalgamados com o trabalho. Melhor estar preparado para encontrar os colegas e a diretoria de roupa de banho e chinelos, na praia, na fazenda, no parque. Tudo indica que será esse o próximo estágio da busca por inovação.
Questiono se nossa capacidade de inventar coisas novas, na condição de human beings, pode ser estimulada e hackeada intramuros. Como você costuma ter seus insights? Os meus melhores dias surgem em meio à natureza e, na ausência dela, no chuveiro, ou ao lado da crespinha, minha planta xodó, que divide o escritório comigo.
Compartilhar ideias com o time sempre foi bacana e saudável, mas para as mesmas fluírem, bastavam pincéis e post-its, ou até mesmo a velha Bic e um bloquinho. Para as empresas, parece que arrancar inovação dos seus executivos virou um desafio muito mais complexo e caro — além de extremamente trabalhoso. Talvez tudo o que precisem para refrescar a cabeça passe por uma quinta-feira para cuidar em paz de si e dos seus.

 

PS: esta edição corresponde aos meses de junho e julho; voltamos em agosto com um número especial; vale a pena esperar ;)

GloboMais.jpg

Gostou? Para ter acesso a essa reportagem completa e ao conteúdo integral da edição, acesse a Época Negócios pelo aplicativo Globo+, que está disponível na Google Store e na iTunes Store. 

GoogleStore.png
AppStore.png