RH, O NOVO CEO DO SÉCULO 21

Ah, se a juventude soubesse que por aí ainda existe cartão de ponto de cartolina... Fez cara de ‘para que serve?’. São usados por funcionários em relógio cartográfico mecânico. Artigo 74 da CLT, meu bem. E carimbo do CNPJ? Continua a ser exigido para cadastro de fornecedor em algumas grandes empresas. Ah, se os veteranos pudessem ter usufruído da flexibilidade do home office, do curso de unconscious bias, do direito à licença-parternidade... Será que estariam aqueles menos surpresos e estes mais conformados com a velocidade das mudanças no ambiente de trabalho? Tenho dúvidas. Mesmo no poderoso ano de 2020, tive provas de que nossas vidas continuam analógicas em várias frentes. Ainda bem que essa geração 5G, impulsionada pela pandemia, vai continuar empurrando as fronteiras para uma nova dimensão digital, ética, socioeconômica e comportamental. Amanhã continuará sendo radicalmente diferente do que temos hoje. Como o hoje é drasticamente diverso de apenas poucas décadas atrás. Seremos mais felizes, juro. Basta lembrar que no Brasil abandonamos o escritório, mas ainda vamos ao cartório com o nosso documento da década passada para provar que aquela assinatura é mesmo nossa. E para adquirir o certificado digital temos de ir pessoalmente mostrar o sorriso forçado e as digitais. Por isso o inconformismo, a bola gigante de ferro que, junto com fatores exógenos, obriga a sociedade a demolir seus dogmas. Os corporativos estão se tornando alvo favorito — sem a condução divertida da Miley Cyrus. Estamos assistindo ao começo do fim. Enquanto muitas empresas já retornaram com regras temporárias, outras desenham experimentos flexíveis. Três meses é o novo longo prazo. Desde a moda do downsizing, o RH nunca foi tão demandado. Depois desta edição do GPTW, fiquei pensando que alguns desafios podem fazer do diretor de RH o CEO do século 21. Eis alguns deles: Saúde mental — O GPTW lista um cardápio generoso de benefícios oferecido orgulhosamente pelas grandes e médias empresas aos seus funcionários. Este ano, alguns CEOs foram porta-vozes do tudo bem não estar bem. Isso quebra um tabu não apenas corporativo, mas de etiqueta. Precisaremos pensar duas vezes antes do mecânico “Oi, tudo bem?”. Estamos preparados para ouvir um “Não muito bem” ou um “Nada bem”?. E qual o encaminhamento correto dessa informação? É provável que, na lista dos tíquetes, vejamos a disseminação do vale-psicólogo. Depois do corporate venture, mais uma contribuição das startups às empresas tradicionais. Burnout sai do dicionário dos empreendedores e ganha força no mundo corporativo. Olá, Chief Health Office. Office ou home — Tava acostumado a trocar de carro a cada três anos e apenas perguntar ao setor de frotas qual o próximo a que o seu cargo tinha direito? Com o fim da jornada presencial, talvez seja hora de se despedir e entrar de cabeça na nova lista de mimos. Por que não móveis Herman Miller para um escritório ergonômico? Ou bikes elétricas de última geração, uma lista de collectibles para decorar as videocalls? O fato é que o escritório nunca mais será o mesmo. Quem decretou isso sem querer foi o Itaú, ao anunciar um modelo híbrido para seus funcionários. Se você já desceu no metrô Conceição em direção à praça Alfredo Egydio de Souza Aranha sabe o significado desse anúncio. Entramos na era dos hubs estratégicos de relacionamento, e talvez tenhamos um hospitality manager facilitando essa transição. Diversidade — Ainda tem poucas frutas nessa cesta. O GPTW olha atentamente para esse ponto de corte. Continuamos centrados demais em “homem e mulher”, ignorando que gênero se tornou bem mais fluido para as gerações que começam a assumir o comando. E não dá para postergar a urgência da questão racial depois do programa de trainee do Magazine Luiza. O Roda Viva com a cofundadora da fintech mais badalada do país mostrou que o que era crônico se tornou agudo e demanda ação e atitude. Teremos o chief diversity officer em alta porque diversidade é mais diverso do que imaginamos e, dizem as pesquisas, faz bem para as organizações. Liderança — Algumas empresas estão fazendo treinamento para que os chefes identifiquem sinais de estresse e depressão no seu time. Oi? Temos de resolver um probleminha antes. É o modelo de gestão que precisa ser revisto. Do que adianta tratar de enfermidades psicológicas se o estilo da liderança é a causa de algumas delas? Como ser um líder assertivo e que traga os resultados pactuados em um processo de virtualização das relações e digitalização dos negócios? O chefe pede socorro, e seu papel está em vias de reinvenção, como no caso dos professores. Regras virtuais — Não posso me considerar um exemplo desde que um pássaro exótico invadiu minha residência e se tornou hóspede temporário. Esse estranho no ninho também quer participar das minhas calls, assim como os filhos e outros pets de alguns interlocutores. Perdi as contas de quantas reuniões virtuais e lives participei neste ano. Mas esse tema é sério. Não basta fornecer o software de videoconferência. É preciso adicionar à lista de treinamentos obrigatórios um curso básico de como se comportar, para onde olhar, quando colocar no mute, como arrumar o seu cantinho, a luz adequada, a cor de roupa que funciona, os limites de horários, o teste do link um pouco antes da reunião. Amanhã, creio que usaremos cenários de games e holografias para nos virtualizarmos. Tornaremos comum o onboarding virtual e a integração entre times digitais para manter o team morale. Enquanto isso, fornecedores de etiqueta virtual e diretores de lives precisam ser cadastrados urgentemente. Tanto já falamos de robotização do trabalho e vem 2020 nos mostrar que o Recursos Humanos ganhou superpoderes para equacionar pessoas, tecnologia e resultados. Eu chamaria o novo RH de Recursos Harmônicos, aquele que deve nos ajudar durante a travessia rumo a mais uma transição. 

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