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Editorial

TRABALHAR PARA QUEM, ONDE, QUANDO, COMO, COM QUEM MESMO?

Comecei a vida profissional como secretária em uma universidade, aos 16 anos, batendo ponto em um relógio Dimas de Melo Pimenta, mais conhecido como DIMEP, ainda sem sistema RFID. Chegar atrasada era a morte: os minutos me denunciariam e, em caso de três reincidências, teria o salário descontado em um dia inteiro. Eu era pontual. Com o relógio. Porque depois do check-in, ninguém esperava que você já estivesse pronto para trabalhar. Ah, não mesmo. Gastava-se uma boa meia hora – pelo menos – com a maquiagem no banheiro, seguida pelo cafezinho e por minutos inteiros com colegas encontrados no meio do caminho. Meu apelido, não exclusivo: pau de enxurrada. E olha que nunca contei isso antes pra ninguém.
Meus chefes exigiam e apreciavam a pontualidade. O mesmo não era válido para produtividade. Mais importante que tudo era estar ali. Quando necessário, fingir que estava trabalhando, embora nem sempre fosse o caso de fingir. Nem de trabalhar. Na dinâmica do escritório, a gente se comportava como robô. E era esse mesmo o comportamento esperado pelo nosso chefe. Embora tenha certeza de que o designer de ASTRO ficaria ofendido ao saber de tal comparação: muitos dos meus chefes da época entendiam comandos, mas eram incapazes de ponderar dificuldades no ambiente ou demonstrar sentimentos. E tropeçariam fácil em um cachorro deitado – algo impensável para ASTRO, segundo o manual de sua fabricante, a Amazon.
Lembro hoje daquele tempo e me pergunto por que tanto medo do futuro. Ao menos desse futuro que adiantou o ponteiro e chegou bem mais cedo que o esperado, em 2020, trazido pela realidade paralela da pandemia. Ainda nos apavoramos diante da perspectiva de termos nossas profissões roubadas pelos robôs-robôs, mas pouco questionamos os robôs-gente, treinados anos a fio na cultura de cada empresa.
Bem sabemos que, como vítimas da nossa época, só nos damos e daremos conta de todos os absurdos que fazemos e faremos quando o tempo já for passado. São poucas as criaturas – bichos corporativos aí incluídos – que parecem ter nascido com sensores acima da média humana, melhores que os de WALL-E, a ponto de captar sinais de outros mundos, mesmo que eles ainda não existam, de fato.
Foi assim com a digitalização: a vida virtual, anunciada havia mais de uma década. E só um vírus para nos fazer desembarcar nela. E olhe lá! Quantos já não tomaram o primeiro expresso para o passado e insistem em ali, para sempre, ficar? Nesta edição, que celebra um quarto de século da pesquisa GPTW (fico pensando se seria esse o nome, caso fosse lançada hoje. Where’s the real place?), fizemos uma viagem de volta para o futuro, conversando com gente de verdade, líderes capazes de trazer para o presente os indícios de mudança na prática cotidiana. Elegemos um visionário para cada pergunta que aflige dez a cada dez CEOs, elencadas no título dessa missiva. A futurista Amy Webb, ídola pop do SXSW, alerta os navegantes: não é possível prever o futuro; mas, sim, é perfeitamente possível prever futuros. 
O futuro de quem resolveu romper com o passado da Faria Lima, como o empreendedor Thomaz Srougi, o Doutor Consulta, que nos contou como vê sua vida em retrospectiva: “… viver à margem, achando que entende de tudo e não entende de nada. Rei da planilha, lendo as notícias, fazendo fofoca nos almoços”; ou do jovem executivo Pedro Bueno, CEO da bilionária Dasa, que, com a coragem de um millennial, se assumiu gay em rede social e stands by uma geração que resiste ao teatro corporativo e anseia ser quem se é. Nosso convidado para responder a questão sobre Onde Vamos Trabalhar é Guilherme Benchimol, fundador da XP, que abandonou o Complexo JK Iguatemi e suas impressionantes torres empresariais. Ao que parece, até agora, no regrets. Assim como a dupla de decacórnios da Brex, Henrique Dubugras e Pedro Franceschi, Benchimol acredita que lazer e trabalho podem estar amalgamados, e o papo jogado fora no cafezinho não basta para criar a tão almejada conexão e construir cultura. 
E enquanto o mundo do trabalho vira um grande laboratório, com teóricos de sobra pra validar o remoto, o híbrido e o presencial, tudo junto e misturado, sigo pensando no que um arqueólogo vai reportar sobre nosso presente ainda pandêmico e a vida nas torres, na casa-escritório e nas fazendas corporativas quando o futuro for futuro de verdade, no prometido metaverso, e todas as nossas crenças tiverem se tornado pó. 

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