Editorial

A CRISÁLIDA DO SETOR FINANCEIRO

Mudanças são comuns e bem-vindas no Olimpo do sistema financeiro. Até porque está difícil acompanhar o ritmo das alterações na nossa vida cotidiana e no ambiente profissional, se é que ainda conseguimos enxergar o tênue fio imaginário que separa esses ambientes nos cômodos da vida.  
O que chama a atenção no caso da XP são a rapidez e a escolha. Quem acompanha o mercado financeiro sabe que sucessão é um processo cheio de reuniões, sigilos e “lista tríplice” para anunciar o eleito. Os preteridos ganham vaga em conselhos ou partem para novos desafios.  
Guilherme Benchimol é um empreendedor brasileiro que, em 20 anos, conseguiu abocanhar um território importante no mapa geográfico dos produtos e serviços bancários. Montou um modelo baseado em agentes autônomos e escalou por meio deles a oferta de investimentos para os endinheirados do país. 
Ele anunciou que em breve, e aparentemente sem os ritos formais para a escolha do sucessor, ficará no hall dos conselheiros, obviamente na cadeira Aeron da presidência, e deixará no seu lugar o atual CTO. Chief technology officer. Que não é formado em ciência da computação e afins, mas entende de negócios e ganhou visibilidade ao liderar um projeto de criptomoedas que esbarrou em riscos regulatórios atrelados ao tema.  
Você passaria o bastão da sua empresa para o CTO? Acho que aquela frase famosa do Marc Andreessen explica esse novo paradigma. O software comeu o mundo. Pelo menos o do mercado financeiro. Olhando para o campo de batalha, temos as instituições do andar de cima, pouquíssimos assentos para comandar mais de 80% dos ativos do setor; as consolidadas, que disputam a fatia menor; e as startups, que não respeitam hierarquias e desejam arrancar um naco de todos os lados. O cenário é uma necessidade profunda de transformação digital, já em curso faz algum tempo, mas esbarrando em obstáculos imensos de legados e de cultura.  
Sai na frente quem nasce em um ambiente livre de softwares em monolitos e se orgulhando da sua linda infraestrutura tecnológica baseada em microsserviços e APIs? Ou quem adota metodologia ágil e divide seu time em squads? Quem já fez curso de PMI e acompanhou a faca afiada do downsizing sabe que cada época tem sua moda e métodos próprios.  
Eu diria sem temer que todos os CEOs do mercado financeiro com quem converso vêm liderando o mesmo processo com diferentes graus de progresso. Aquela instituição do metrô Conceição, por exemplo, tem andares que parecem os tão famosos coworkings de ontem. Seus developers frequentam o escritório de bermuda, em ambiente descontraído, já tem alguns anos. Tudo bem que hoje somos todos startupeiros trabalhando de moletom e de forma remota. Mas até alguns anos atrás isso era inimaginável. Estávamos no início da revolução.  
E no centro dela está o mercado financeiro, a sua conta bancária, seu cartão de crédito, seus investimentos, previdência privada, seu seguro. Mudando a relação desses pilares estão o open banking, a novidade das finanças e das corretoras descentralizadas, das criptomoedas.  
Causando atrito, além dos reguladores, estamos nós, o cliente digitalizado exigindo mais e mais serviços no menor espaço de tempo. Nós, o cliente analógico desesperado porque não entende que, ao bloquear o cartão físico, não está bloqueando automaticamente o virtual.  
Parece que a festa apenas começou — e na lista dos vencedores já tem um nome garantido. O do consumidor. Nubank, com sua expansão, entregando a Aeron verde-amarela para Cristina Junqueira e contratando um badalado CTO global, também se mexe para avançar na mesma frente da XP. Comprou a Easynvest, adicionando investimentos ao portfólio, e prepara-se para a briga dos neobancos, assim como a XP.  
Os números são impressionantes, as possibilidades infinitas. Desejo muito boa sorte ao Thiago Maffra, novo CEO da XP que nos deu essa entrevista exclusiva, assim como à Cristina Junqueira. Acompanharemos a gestão, os produtos e, principalmente, a necessidade que a pandemia trouxe aos negócios e seus indivíduos. Empresas que estão trabalhando para inovar, crescer, mas também para a comunidade e a preservação da vida na Terra. Novos líderes na era do ESG, sigla que vai muito além da diversidade. Líderes que podem brigar com os grandes de igual para igual, mas levar uma mordida de uma startup que deixou escapar em alguma oportunidade de aquisição. Uma época excitante para ser CEO. 

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