TERRA EM TRANSE

Emblemático o semblante furioso de Greta Thunberg, integrante ilustre da geração Z. Ela e seus contemporâneos entenderam de forma cristalina a ironia da última letra do alfabeto: correm o risco de serem os últimos habitantes da versão da Nave Terra coberta por oceanos e florestas.
Além de viver sob a sombra da destruição, receberam o convite para assistir na primeira fila ao desfile das tragédias trazidas por uma acelerada mudança climática.
A esta altura, não dá para ignorar ou negar esse assunto que transpassa fronteiras ecológicas, sociais, econômicas. Quem o faz, periga ser o terraplanista do clima. O assunto é tão real e urgente que foi o destaque de Davos, onde o tema ganhou a alcunha de Cisne Verde, uma alusão ao Cisne Negro da crise financeira de 2008.
Com um detalhe incômodo. A diferença entre as duas crises é do tamanho da fossa abissal das Marianas. Quando se trata de emergência climática, está em jogo a capacidade humana de sobreviver em um planeta hostil à sua própria espécie. Como os faraós, que não gostavam de ser enterrados sozinhos, ainda levaremos a reboque boa parte da biodiversidade.
Se para os criacionistas Deus criou o mundo em sete dias, levaremos pouco mais de sete décadas para tornar irreversível o esgotamento do nosso hábitat.
O capitalismo, apostando em recursos e crescimento infinitos, também está em xeque, e à procura de uma clínica de reabilitação para se redefinir como modelo econômico viável.
No entanto, enquanto os líderes dos países demoram para chegar a um acordo global e estabelecer metas pesadas, parece estar no próprio capitalismo a possível saída desse caminho estreito.
Davos foi uma pequena prova de que, para o topo do mundo, cara feia significa perda de mercado por boicote de toda uma geração, que já representa 24% da população mundial. Pós-conferência, o coronavírus também esfregou na cara do capital que não respeita regras e contratos, nem cumpre prazos. Ainda está para ser contabilizado o estrago no PIB do mundo.
Aliás, o próprio conceito de PIB está sendo revisto. A frase abaixo, por exemplo, poderia sair de qualquer “esquerdista” do Twitter. Mas foi emitida pelas cordas vocais do CEO da BlackRock, Larry Fink. É somente o MAIOR fundo do MUNDO, administrando US$ 7 trilhões em ativos:
“As empresas devem ser deliberadas e empenhadas em abraçar o propósito de servir todas as partes interessadas — seus acionistas, clientes, funcionários e as comunidades onde operam”.
Sentem o cheiro de mudança de paradigma? Riqueza de longo prazo, somente com sustentabilidade.
Multinacionais como Engie, Schneider e Natura já colhem os lucros do pioneirismo, enquanto novos negócios com DNA 100% sustentável nascem pelas mãos dos millennials e Zs. Essas empresas provam que é possível ter crescimento, dentro dos limites do planeta. Mas ainda são poucas diante da urgência.
Mesmo com as excelentes histórias, diretrizes e exemplos que trazemos para você, quando se trata de futuro, lembro e relembro do fim da primeira estrofe do poema de  Augusto dos Anjos:
“Assombrado com a minha sombra magra, pensava no destino, e tinha medo!”.
Mas nada de pânico. Se o tempo não estiver do nosso lado, quem sabe não aparece um Ford Prefect para nos salvar ;)

Gostou? Para ter acesso a essa reportagem completa e ao conteúdo integral da edição, acesse a Época Negócios pelo aplicativo Globo+, que está disponível na Google Store e na iTunes Store. 

GoogleStore.png
AppStore.png
NovoLogoEpocaNegociosMar2016_Branco.png